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BLITZ TOTAL - O senhor teve contato com a agricultura. Quando o senhor toca as canções no interior se identifica com algo, com a sua infância, com a sua adolescência?
PADRE FÁBIO - Com certeza. Eu cresci no meio rural, em casa nós ainda tínhamos aquele tradição de cultivar a própria verdura que nós comíamos, eu aprendi isso desde muito cedo, porque em casa todo mundo ajudava no processo dessa produção caseira. A minha mãe ela nos incentivava muito a ter o nosso espaço de produção, e ela mesmo quem cuidava. O meu pai era pedreiro, trabalhava com construção, mas a minha mãe todos os desdobramentos de uma vida doméstica ela tinha, inclusive essa produção em casa mesmo, de muitas coisas que nós comíamos, nós produzíamos muita coisa em casa. Eu tenho uma raíz muito rural mesmo, da qual eu não me distancio. BT - O senhor acredita que no interior os fiéis são mais devotos? PF - Eu acredito que no interior facilita um pouco mais a vida em Deus, porque todo lugar em que a gente tem um cotidiano mais simples, eu acho que Deus tem mais facilidade de entrar. Não é que ele não se manifeste em grandes centros, mas é que nos grandes centros há muita distração, há muita coisa que muitas vezes prejudica a sensibilidade religiosa. Eu acho que o interior nos ajuda muito. BT - Como o Padre vê o uso da mídia na divulgação do Evangelho, através da música? PF - Um meio muito importante. E eu vejo com muita responsabilidade. A partir do momento que eu tenho a oportunidade de estar na mídia fazendo um trabalho de evangelização isso recai sobre mim uma responsabilidade muito grande. Primeiro para que eu não esqueça o objetivo de estar lá, e ao mesmo tempo não permitir que eu seja um objeto para essa mídia. Então estabelecer mesmo um equilíbrio nesta parceria que a gente faz com a mídia. BT - E quais os pontos positivos e negativos dessa exposição midiática? PF - Às vezes nós erramos quando a gente resolve estar em uma determinada situação com o objetivo de evangelizar, quando na verdade a gente percebe que depois que a coisa aconteceu, foi muito mais um malefício do que um benefício, as vezes isso acontece muito. BT - O senhor é o caçula de oito filhos, filho de um pedreiro. Essa origem humilde ajudou ao senhor a difusão da Palavra de Deus? PF - Engraçado. Eu sempre digo que o que fez o meu trabalho dá certo, é o formato da minha comunicação. Eu acredito que as pessoas se identificam muito com o jeito que eu falo. E eu acredito que isto esteja diretamente ligado a minha origem humilde, minha origem muito simples. Mesmo eu tendo tanta oportunidade de estudar, de me especializar em tantas coisas, e de poder viver uma aventura muito interessante de conhecimento, eu percebo que o melhor que eu faço recai no horizonte da simplicidade. A linguagem sofisticada ela não ajuda muito. E esta origem humilde, pra mim é coisa que eu preservo muito e que faço questão de trazer porque é um momento que eu estabeleço vínculo com as pessoas. BT - Sucesso de público e de crítica, o fenômeno artístico-musical Padre Fábio de Melo estorou em todo o Brasil e agrada aos mais diversos gostos, faixas etárias e classes. A sua condição de padre, de alguma forma, contribuiu para esse sucesso? PF - Com certeza. Eu acho que me evidenciou foi o fato de ser padre. É o que eu tenho a dizer que me tornou uma pessoa conhecida. E ser padre nesta condiçãode ter a oportunidade de ter um veículo de comunicação para socializar a palavra de Deus, para fazer essa palavra chegar aos meios que talvez por um método convencional eu não poderia chegar. BT - O Padre Fábio de Melo se apresenta como um pároco que tem quebrado paradigmas dentro da própria Igreja, instituição milenar. Como tem sido a relação do Padre Fábio de Melo com as autoridades eclesiais superiores, até da própria Diocese, e com a sua comunidade, com a comunidade de fiéis? Há algum tipo de restrição? PF - Eu, graças a Deus, tenho tido uma boa parceria com os Bispos, com os Arcebispos pelo Brasil afora. Primeiramente a começar com o meu, Dom Carmo, que é o Bispo da Diocese onde eu moro, que me acompanha de perto, sabe cada passo que eu tenho dado na vida, com todas as iniciativas, com todas as oportunidades, com todo esse trabalho de evangelização pela música, também pela literatura, tudo ele fica sempre do meu lado para me ajudar a decidir a melhor coisa, a tomaro melhor caminho. E eu sempre digo, que essa coisa de ser comunicador é muito perigoso, porque a gente quebra uma regra eclesiástica: todo pastor, todo Bispo tem o direito de dizer quem ele quer pregando na sua Diocese ou não. Mas a partir do momento que a gente está na televisão ele não tem como controlar isso. E eu faço isso com muita responsabilidade porque eu tenho consciência de que eu não sou portador de uma opinião. Eu tenho uma teologia por trás de tudo isso. Uma estrutura religiosa, eu tenho um conjunto dogmático atrás de tudo isso. E o que eu preciso fazer é buscar uma linguagem que não venha a ferir tudo isso. Eu não posso ganhar o mundo e perder a minha casa. Então eu tento fazer de tudo para que eu possa manter essa comunhão nos mínimos detalhes. BT - Em algum momento de sua trajetória o senhor teve algum conflito, alguma dúvida que ser padre era o que realmente o que senhor queria? PF - Eu sempre tive muita dúvida de como ser padre. Eu acho que a questão de ser padre eu sempre fui muito consciente que era isso que eu queria. Agora como é que eu queria ser padre isso sempre passou muito pelo contexto das minhas escolhas. Porque eu acho que toda boa escolha passa o tempo todo pelas "repensagens", se é que a gente possa dizer assim, eu repensar a minha vida, não no sentido de desistir do que eu sou, mas como que agora eu vou desdobrar isso na minha vida. É como uma carreira artística também, eu vejo isto. O bom artista é aquele que sabe se reinventar ao longo do tempo. Ele não faz um trabalho único. Ele não é sucesso de um trabalho único, mas a sua arte se desdobra em muitos outros braços, em que ele vai descobrindo aos poucos esta origem daquilo que o move. Acredito que todo nós. Um marido pra ser fiel a esposa, ele tem que todos os dias descobrir um motivo pra isso. Um pai pra ser fiel a seu filho, ele tem que descobrir todos os dias um motivo pra continuar a ser fiel. Vocês que são repórteres, tem que se apaixonar por essa profissão todos os dias. A mesma coisa sou eu. Ninguém está livre de uma necessidade derepensar a própria vida, não no sentido de desistir do que se é, mas os desdobramentos daquilo que a gente é. BT - Padre, como está sendo a experiência dos holofotes todos. O silêncio é um material de trabalho espiritual do senhor, pois precisa do silêncio para se elevar, pra se comunicar, pra se interiorizar, como está sendo lidar com os holofotes? PF - Ainda hoje eu comentava quando a gente viajava pra cá, com os meninos da banda, que as vezes eu tenho uma sensação que eu me violo demais. Porque eu não nasci pra isso. Eu nasci pra essa coisa de muita gente, de muita badalação, eu sou muito rotineiro, e eu gosto de rotina. Eu gosto do cotidiano, eu gosto do dia-a-dia. E a minha vida foi me levando pra um caminho que hoje eu não tenho muito mais isso. Então o que é que eu faço, qual é o meu grande desafio: eu conseguir preservar a minha identidade no meio disso tudo. Eu tenho consciência de que eu faço um martírio. Eu vivo uma espécie de martírio. Eu se tivesse um jeito de inventar de chegar, sem ter que ir, seria uma solução maravilhosa, porque todos esses deslocamentos são muito cansativos. E essa badalação toda as vezes ela é uma oposição mesmo a tudo que é espiritual. Qual o meu maiormedo, e o que mais cansa em minha vida de Padre-comunicador? Quando eu percebo que eu tenho que enfrentar todos os dias, uma espécie de tietagem que me pesa muito mais que o meu ofício de realizar uma palestra, de cantar duas, três horas seguidas, de presidir uma Eucaristia, isso nada me cansa. Mas os bastidores disso tudo muitas vezes é muito cansativo, porque acaba violando uma intimidade, e a gente fica público demais. Isso pra mim é o maior desafio hoje. Consegui me encontrar no meio disso tudo, e manter uma identidade, mesmo quando tudo é muito contrário ao que eu sou. BT - Padre jovem, bonito, comunicador de sucesso e o assédio do público feminino, como o senhor administra essa situação? PF – Eu administro do jeito que tem que ser. Eu nunca permito que uma situação se estenda mais do que ela pode, então se durante um show tem uma manifestação que de alguma forma me agrida ou me banalize, eu já digo imediatamente no microfone para que todo mundo possa ouvir que nós temos um objetivo muito claro ali. E no meu dia-a-dia eu tenho a minha equipe que está sempre comigo , eu nunca, nunca, nunca mesmo gosto de me aventurar sozinho, eu acho que a gente ter uma equipe de trabalho é uma excelente forma da gente preservar o que a gente tem como valor e muitas vezes é essa equipe que me ajuda, que me sustenta na hora em que eu preciso lidar com essas situações, quando o camarim ta cheio de gente e muita gente bem intencionada, outras nem tanto, é uma administração que a gente faz dia-a-dia. BT - Padre, qual a sua opinião sobre a proibição do uso de anticoncepcional pela Igreja Católica? PF – Eu acredito que essa questão ela é muito mais ampla do que “pode ou não pode”, eu sempre digo que a Igreja ela tenta preservar um valor. Eu particularmente sempre fui muito adepto dos métodos naturais, porque eles não agridem o organismo da mulher, a gente sabe que ele é possível, mas ele exige disciplina. Mas o ser humano tem muita dificuldade com tudo àquilo que é disciplina. Eu acho que tudo aquilo que passa pelo processo da restrição, antes de nós dizermos que pode ou não pode, nós deveríamos pensar que nós fomos feitos para a disciplina. E que é muito interessante quando o ser humano consegue buscar o caminho natural porque ele se esforçou para viver aquele método. É por isso que eu sempre defendi os métodos naturais de anticoncepção, porque eu acho que é domínio da mulher. É um direito seu, que o seu corpo não passe por toda aquela desordem hormonal que muitas vezes esses métodos trazem. BT - E com relação a camisinha? PF - Com a camisinha ela pode até te proteger de uma gravidez indesejada, mas ela não lhe protege de você se sentir usada pelo seu parceiro, e o grande problema que a Igreja fala, sobretudo no que diz respeito ao sexo e a camisinha é que quando nós propomos o discurso da camisinha, é como se nós estivéssemos dizendo que as pessoas pra se usar a vontade, e a gente sabe muito bem as consequências que uma sexualidade mal vivida tem na vida de uma pessoa. BT - Quais as influências musicais do Padre Fábio de Melo, o que o senhor costuma escutar? PF - Eu escuto a boa música popular brasileira, gosto de música de todos os estilos, música sertaneja de raiz gosto muito, mas a música popular é a que toca sempre na minha casa. Obrigado pela presença do site em nosso show aqui em Juazeiro. Geyder Gomes, Pe. Fábio de Melo e João Jaques Entrevista com o Padre Fábio de Melo João Jaques questionando o Padre Fábio de Melo Padre Fábio de Melo durante entrevista no Hotel Grande Rio, em Juazeiro Apresentação do Padre Fábio de Melo na Orla Nova de Juazeiro Show para mais de 10.000 pessoas segundo os organizadores do evento Para comentar clique aqui: Comentário(s) (1) |